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Perspectivas
Dez Anos de Desenvolvimento do Turismo e do Jogo em Macau: Impactos e Tendências
Perspectivas
Dez Anos de Desenvolvimento do Turismo e do Jogo em Macau: Impactos e TendênciasAo longo da última década, Macau passou por uma evolução profunda, deixando de ser um enclave centrado quase exclusivamente no jogo para se tornar um destino turístico internacional mais diversificado embora ainda fortemente ancorado no sector do jogo. A transformação da cidade foi moldada por investimentos de capital de grande escala, reestruturações regulatórias e mudanças no perfil dos visitantes, especialmente durante o processo de recuperação pós‑pandemia. À medida que Macau continua a perseguir o seu mandato estratégico de se afirmar como um Centro Mundial de Turismo e Lazer, o período até ao início de 2026 revela simultaneamente a resiliência e as vulnerabilidades estruturais do seu modelo de desenvolvimento.
O motor económico de Macau continua a ser, de forma esmagadora, o sector do jogo, mas os últimos anos revelaram um quadro mais matizado de recuperação e reajustamento.
Em 2025, a receita bruta do jogo (GGR) voltou a subir para 247,40 mil milhões de MOP, o valor mais elevado desde 2019, reflectindo uma recuperação robusta do segmento de massas e uma melhoria cautelosa do segmento VIP. A Fitch Ratings projecta que, em 2026, o GGR atinja aproximadamente 260 mil milhões de MOP, cerca de 89% dos níveis de 2019, com o crescimento do PIB a moderar para 4% à medida que a recuperação estabiliza. O orçamento do Governo da RAEM para 2026 adopta uma estimativa mais conservadora de 236 mil milhões de MOP, reflectindo prudência perante incertezas externas, como a desaceleração económica da China e a volatilidade do turismo global.
O fortalecimento do Renminbi (RMB) tornou‑se um factor favorável para o sector do jogo em Macau. A CLSA prevê uma valorização contínua do RMB até 2026, impulsionando as viagens de saída da China continental que é o principal mercado emissor de visitantes para Macau e reforçando as avaliações das operadoras de casinos.
Apesar da pressão regulatória para expandir actividades não relacionadas com o jogo, Macau mantém uma dependência estrutural do sector, que representou 43,3% do valor acrescentado bruto em 2024. A receita não‑jogo continua a crescer sobretudo no retalho, entretenimento e MICE mas a escassez de mão‑de‑obra, a capacidade hoteleira limitada e as restrições na conectividade aérea dificultam uma diversificação mais profunda. Os contratos de concessão de jogo para 2022-2032 exigem investimentos substanciais em projectos não‑jogo, mas os dados de início de 2026 sugerem que estas iniciativas continuam a ser mais complementares do que transformadoras.
A paisagem física e infra-estrutural de Macau continua a evoluir em resposta à procura turística sustentada.
As chegadas de visitantes em 2025 superaram consistentemente as expectativas governamentais, com quatro meses consecutivos de 20 mil milhões de MOP em GGR entre Maio e Agosto, sinalizando um forte dinamismo turístico. Este contexto reforçou a importância de infrastructures como:
· A Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, agora profundamente integrada nos padrões de mobilidade da Grande Baía;
· A expansão contínua do Metro Ligeiro (LRT), incluindo a extensão para a Ilha da Montanha (Hengqin);
· As melhorias na capacidade do aeroporto, ainda insuficiente face à procura crescente.
A tensão entre o desenvolvimento de grandes resorts integrados (IR) e a preservação patrimonial mantém‑se evidente. A zona do Cotai continua a dominar o horizonte urbano com mega‑empreendimentos, enquanto as áreas classificadas pela UNESCO enfrentam pressões decorrentes do aumento do fluxo turístico e da expansão comercial. A acessibilidade habitacional permanece uma preocupação social significativa, uma vez que a utilização do solo tende a privilegiar projectos orientados para o turismo.
Os sectores do jogo e do turismo continuam a ser os principais empregadores, oferecendo salários elevados mas também criando dependência económica. O número de trabalhadores não residentes continua a aumentar, sobretudo nos sectores da hotelaria e do retalho, alimentando debates contínuos sobre:
· Protecção laboral dos residentes;
· Mobilidade profissional e progressão na carreira;
· Integração a longo prazo das comunidades expatriadas.
O segmento premium mass tornou‑se o pilar da recuperação do jogo em Macau, ultrapassando os níveis de 2019 em 14% durante 2025. Embora esta mudança reduza a dependência dos junkets VIP, também levanta preocupações sobre a exposição da população local à cultura do jogo. Os programas de jogo responsável foram reforçados, mas organizações sociais defendem a necessidade de medidas preventivas mais abrangentes. As PME continuam a enfrentar dificuldades para competir com os IR, especialmente no retalho e na restauração, onde operadores multinacionais dominam os espaços mais valorizados.
A estratégia pós‑pandemia de Macau privilegia o turismo de alto valor em detrimento do volume. As taxas de ocupação e os preços dos quartos aumentaram significativamente no final de 2025, com 33 dos 38 hotéis monitorizados totalmente reservados durante a Golden Week e tarifas 13% superiores em termos anuais.
As operadoras estão a intensificar investimentos em:
· Análise de big data para marketing personalizado;
· Sistemas inteligentes de gestão hoteleira;
· Ecossistemas de serviços sem contacto.
Estas tecnologias visam melhorar a experiência do visitante e aumentar a eficiência operacional.
O retendering das concessões de 2022 introduziu requisitos mais rigorosos relativos a:
· Investimento não‑jogo;
· Promoção do turismo internacional;
· Responsabilidade social corporativa;
· Envolvimento comunitário.
No início de 2026, as operadoras demonstram alinhamento crescente com estes objectivos estratégicos.
O papel de Macau na GBA continua a aprofundar‑se. A cidade posiciona‑se como:
· Destino de lazer premium;
· Pólo MICE para convenções de alto nível;
· Porta cultural que combina herança sino‑portuguesa.
A facilitação das viagens transfronteiriças e a valorização do RMB reforçam ainda mais a atractividade de Macau para residentes de elevado poder aquisitivo da região.
A 31 de Janeiro de 2026, Macau encontra‑se num momento maduro e estrategicamente decisivo do seu desenvolvimento. A cidade alcançou uma forte recuperação do sector do jogo, com a predominância do segmento de massas e condições macroeconómicas favoráveis a sustentar o crescimento. Contudo, a diversificação permanece limitada por factores estruturais, incluindo a escassez de mão‑de‑obra e a conectividade insuficiente.
O futuro de Macau dependerá da sua capacidade de:
· Aprofundar sectores não‑jogo para além das actividades adjacentes aos IR;
· Reforçar a integração na Grande Baía;
· Gerir a densidade urbana e preservar o património;
· Sustentar um turismo de alto valor através da inovação digital e do cumprimento regulatório.
Embora o jogo continue a ser o alicerce económico no futuro previsível, a evolução de Macau para um centro turístico e de lazer mais equilibrado está em curso de forma gradual, mas inequívoca moldada tanto pelas forças de mercado como pela orientação política.
1. Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Indicadores Económicos e Receita Bruta do Jogo 2014-2025. Governo da RAEM, 2026.
2. Direcção dos Serviços de Turismo (MGTO). Relatórios Estatísticos do Turismo 2015–2025. MGTO, 2026.
3. Fitch Ratings. Macau Gaming and Economic Outlook 2025–2026. Fitch Solutions, 2025.
4. CLSA. Greater Bay Area Tourism and Currency Impact Report. CLSA Research, 2025.
5. Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ). Regime das Concessões de Jogo 2022–2032. DICJ, 2023.
6. Autoridade da Ponte Hong Kong–Zhuhai–Macau. Relatórios de Mobilidade Transfronteiriça 2018-2025. HZMB Authority, 2025.
7. UNESCO. Historic Centre of Macao: State of Conservation Reports 2016–2025. UNESCO World Heritage Centre, 2025.
8. Gabinete de Desenvolvimento da Grande Baía. Plano de Integração Turística da GBA. Conselho de Estado da RPC, 2024.
9. Instituto de Formação Turística de Macau (IFTM). Estudos sobre Diversificação Não‑Jogo e Sector MICE. IFTM, 2025.
Morgan Stanley Asia. Macau Integrated Resorts: Digital Transformation and Premium‑Mass Trends. Morgan Stanley, 2025